Estudo do IDOR avaliou dados de mais de 700 mil pacientes para compreender o que mudou na prática hospitalar após a pandemia de 2020
Um estudo que investigou o uso de opioides em mais de 710 mil pacientes de hospitais privados brasileiros notou um aumento na prescrição hospitalar dessas substâncias durante a pandemia de covid-19, em 2020, quando comparado ao ano anterior. A pesquisa, publicada no periódico Scientific Reports, associado à Revista Nature, foi coordenada pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceria com Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A importância e os riscos dos opioides
Os opioides desempenham um papel crucial no manejo da dor e na sedação de pacientes hospitalizados, sendo fundamentais para casos graves de dor crônica, câncer e também para manutenção dos pacientes em ventilação mecânica nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), o que foi muito observado em diversas internações por COVID-19 durante a pandemia.
Medicamentos como fentanil, morfina e metadona são amplamente utilizados para aliviar o sofrimento de pacientes críticos, sendo administrados de diversas formas, como através da via gastrointestinal (enteral) ou por infusões intravenosas (parenteral), para garantir o conforto dos pacientes. Em 2020, a pandemia de covid-19 no Brasil resultou em mudanças significativas na prestação de serviços de saúde, com aumento na demanda por leitos de emergência e cuidados nas UTIs. Isso levou ao aumento do uso de opioides nesses ambientes, especialmente do fentanil e da metadona, para sedação de pacientes e implementação recorrente da ventilação mecânica. Como o país ainda agia com conservadorismo em relação ao uso de substâncias que podem reduzir a dor de pacientes mais graves, a pandemia abriu portas para mais qualidade de vida no tratamento dos mais enfermos, mas a insegurança relacionada ao uso de opioides está longe de ter pouco embasamento.
Nos Estados Unidos, há anos essas substâncias são a maior causa de overdose no país, alcançando o status de uma epidemia que mata 200 pessoas por dia. No Brasil, o problema tem proporções muito menores, entretanto, o roubo e desvio de opioides exclusivos para o uso hospitalar já começam a preocupar as autoridades.
Uso hospitalar de opioides antes e durante a pandemia
Para o estudo, a Rede D’Or, maior rede hospitalar privada da América Latina, disponibilizou dados de 24 de seus hospitais em todo o Brasil, totalizando em informações de 711.883 pacientes aos quais foram prescritos opioides no período de 2019 e 2020.
Dos diferentes opioides utilizados durante o recorte, o fentanil foi o que apresentou aumentos mais significativos em seu consumo, especialmente durante as duas maiores ondas de covid-19 em 2020, que foram marcadas por picos de consumo nas semanas epidemiológicas 19 e 53 da pandemia. Em contrapartida, a morfina e o sufentanil, ambos administrados por via parenteral, apresentaram uma diminuição durante o mesmo período. Enquanto a morfina teve uma queda no consumo total e médio, o sufentanil mostrou um padrão oscilatório, sugerindo variações no seu uso ao longo do ano.
A análise também revelou uma significativa redução no consumo do tramadol, outro opioide administrado por via parenteral, apontando para mudanças nas estratégias de manejo da dor durante a pandemia, principalmente devido a reduções de atendimentos clínicos nas unidades de emergência e cancelamento de cirurgias eletivas.
O remifentanil também apresentou uma diminuição no consumo total em 2020, enquanto a metadona, tanto parenteral quanto enteral, apresentou dinâmicas distintas. O consumo parenteral teve um aumento considerável, com um pico na semana 13, enquanto o consumo enteral mostrou um aumento geral. Essas variações podem indicar adaptações na administração de opioides, possivelmente relacionadas às necessidades específicas dos pacientes ou à disponibilidade de determinados medicamentos. “Houve uma documentada falta de diversos medicamentos essenciais para unidades de terapia intensiva no mercado. No entanto a Rede D’Or conseguiu garantir o tratamento aos pacientes internados e ainda pôde contribuir com os órgãos públicos, principalmente com doações”, relembra o primeiro autor do estudo, Rômulo Carvalho, farmacêutico coorporativo da Rede D’Or e doutorando do IDOR.
Intervenções precoces podem evitar cenários indesejados
Os resultados do estudo indicam uma correlação entre o aumento do consumo de opioides e os picos de hospitalizações por covid-19 em 2020. Esse achado destaca a complexidade da gestão de pacientes em um ambiente de pandemia, onde o uso desses medicamentos é essencial, mas seu aumento substancial pode resultar em desafios significativos, como a potencial falta de monitoramento desses pacientes após a alta hospitalar.
Esses dados fornecem uma visão abrangente das dinâmicas do consumo de opioides em hospitais privados brasileiros durante a pandemia, fornecendo uma compreensão mais detalhada e crucial para práticas clínicas e para o desenvolvimento de políticas de saúde, visando uma gestão mais eficaz e segura do uso de opioides em períodos de crise sanitária. Reconhecer a importância do uso cuidadoso de opioides em contextos hospitalares é apenas um passo importante para evitar o desenvolvimento de transtorno por uso de opioides. “Sem dúvida são medicamentos essenciais, mas precisamos evoluir em políticas e ações de educação para os profissionais de saúde, além de acompanhamento pós-alta de pacientes que precisaram dessa terapia medicamentosa durante sua internação”, acrescenta o pesquisador.
Para que o uso dessas substâncias tão importantes para a prática clínica não se torne uma faca de dois gumes, também é essencial promover uma prescrição consciente desses medicamentos e fortalecer programas de educação sobre o uso seguro de analgésicos. A experiência internacional, como a crise nos Estados Unidos, destaca a necessidade de precaução e intervenção precoces para mitigar os riscos alarmantes associados ao consumo inadequado de opioides.
Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu
Ilustrações: Storyset