Foco de linha de pesquisa liderada pelo Dr. Leonardo Fontenelle, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo apresenta diferentes intensidades e afeta milhares de brasileiros
Ideias intrusivas, compulsões, imagens que invadem a mente de forma tortuosa e insistente, como um disco arranhado. A única maneira rápida de se livrar desses pensamentos: cedendo a eles. É com esses problemas que vivem as pessoas que possuem Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), que são cerca de 2% da população mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde. O TOC é considerado um dos Transtornos de Ansiedade, e apresenta diferentes graus de severidade e sofrimento, podendo chegar a prejudicar a vida profissional e pessoal dos indivíduos.
Geralmente associado a compulsões ligadas a limpeza, simetria e acumulação, no Brasil, aproximadamente 4 milhões de pessoas sofrem com o problema. Mesmo com a crescente conscientização da população sobre a saúde mental, o TOC ainda não é discutido com naturalidade nem entendido como um transtorno incidente, embora já tenha sido muito representado em obras cinematográficas de reconhecimento.Um dos filmes mais conhecidos sobre o tema já rendeu aos seus dois protagonistas o Oscar de melhor ator e melhor atriz do Academy Awards, maior premiação do cinema norte-americano, em 1998. Em Melhor Impossível, o drama estrelado por Helen Hunt e Jack Nicholson (imagem abaixo; créditos: TriStar Pictures), o personagem de Nicholson apresenta sintomas diversos de TOC, como usar um sabonete novo a cada lavagem de mãos, não tocar em animais de estimação, evitar pisar em rachaduras na calçada e tomar o café da manhã sempre na mesma mesa do mesmo restaurante, ficando descompensado emocionalmente quando não pode cumprir seus rituais.
Outro filme interessante sobre o transtorno é a comédia espanhola TOC TOC (imagem acima; créditos: Warner Bros. Pictures), que retrata o encontro de seis personagens com diferentes tipos de TOC na sala de espera de um consultório psiquiátrico. Nele são representados, além da obsessão por limpeza e organização, outros tipos de sintomas, como realizar cálculos matemáticos de forma involuntária, a necessidade de repetir palavras ou frases e a preocupação excessiva com perigos improváveis.Fora do mundo do entretenimento, o transtorno não é uma excentricidade. Na realidade, muitos indivíduos escondem seus sintomas e não buscam ajuda profissional por sentirem culpa e medo do julgamento social. É o que explica o Dr. Leonardo Fontenelle, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), que lidera um grupo de pesquisa voltado para o TOC e outros transtornos de ansiedade, possuindo como enfoque de suas pesquisas as consequências a longo prazo para as pessoas que apresentam os sintomas e que não procuram tratamento.
“Eu tenho interesse nas razões pelas quais as pessoas se envolvem em comportamentos que acabam sendo muito prejudiciais a elas. Há uma série de comportamentos que são frequentemente mencionados na literatura médica, mas ainda são pouco compreendidos. Acreditamos que traços compulsivos, impulsivos e ansiosos podem variar em gravidade, estando mais leves ou mais severos em diferentes fases da vida, de forma que a linha que separa os traços normais dos realmente preocupantes pode ser borrada.”, comenta o Dr. Fontenelle.
As publicações lideradas pelo pesquisador sobre o tema são referência na comunidade científica mundial. Segundo o Scival, plataforma da Elsevier que permite levante de dados sobre desempenho de publicações e benchmarks de instituições de pesquisa, o Dr. Leonardo Fontenelle se encontra na segunda posição da lista internacional dos autores que mais publicam sobre TOC.
Seu grupo de pesquisa também busca identificar fatores possam aumentar a chance de transformação de sintomas leves de TOC em transtornos mais graves. Esses fatores podem variar de acordo com as personalidades ou eventos de vida traumáticos e estressantes. “Os transtornos de ansiedade e o TOC leve podem representar o primeiro estágio para o desenvolvimento de transtornos mais graves, os quais podem ser hipoteticamente prevenidos através de intervenções específicas, incluindo mudanças no estilo de vida das pessoas”, acrescenta.
Além de colaborar para a compreensão de fatores de risco para os transtornos de ansiedade e TOC, o projeto de pesquisa atual do Dr. Fontenelle vislumbra ainda investigar outros transtornos relacionados ao TOC, como o transtorno dismórfico corporal (associado à relação da pessoa com sua imagem), transtorno de acumulação e o vício em substâncias ou jogos de azar, problemas de saúde mental que também afetam numerosa parcela da população mundial.
Escrito por Maria Eduarda Ledo de Abreu.