Cortes contínuos no fomento à ciência nacional deixaram o país em desvantagem na contenção da pandemia
Para a grande maioria de cientistas e pesquisadores, estudar a pandemia, seja em seus aspectos econômicos, sociais ou biológicos, não estava propriamente no escopo de seus projetos. Mas agora, em face da emergência, biólogos passaram a compor equipes para produção de kits de testagem, psicólogos forneceram seu tempo para atender de forma mais acessível as pessoas em isolamento e comunicadores de diversos veículos buscam fontes confiáveis para atualizar a todos sobre qualquer novidade a respeito da pandemia. Além de pesquisadores não saberem quando poderão retornar a quaisquer que fossem seus temas de estudo, aqueles que não puderam relacionar seu trabalho com a atual crise mundial vivem um momento de incerteza e de falta de fomento.
Não se pode discutir que a pandemia de COVID-19 é a prioridade do momento, mas não se pode esquecer de todas as outras atividades que engrenam o país fora do estado de crise, sendo o investimento em pesquisa um dos mais importantes. Uma prova disso é a vulnerabilidade do Brasil no enfrentamento do novo coronavírus SARS-CoV-2. Vivemos em um cenário de fomento decrescente na educação, muitos dos nossos pesquisadores desistem da carreira ou vão para fora do país pela dificuldade de sustento através da pesquisa. O saldo deste sucateamento foi entregue na chegada da pandemia, que encontrou um país dependente da exportação de equipamentos médicos e cujos laboratórios não deram conta de testagens em massa por falta de dinheiro, produtos e de profissionais capacitados.
Lembramos que, apenas no ano passado, mais de 7 mil bolsas de estudo da Capes foram cortadas, a maioria referente às áreas de medicina, educação e engenharia. Apenas na Universidade de São Paulo (USP), a mesma que sequenciou pela primeira vez o genoma do SARS-CoV-2, foram 420 o número de pós-graduandos que deixaram de receber fomento para seus projetos. E o cenário pode se agravar inúmeras vezes durante a pandemia, já que muitos pesquisadores que não trabalham com a COVID-19 estão parando com seus projetos porque não podem contar com as bolsas de financiamento.
Em países europeus, como Alemanha, Inglaterra e Suíça, instituições de financiamento estão fazendo extensões de fomento para garantir entregas de projetos prejudicados durante a pandemia. No Brasil, a Capes ofereceu no início de abril programas emergenciais para auxiliar pesquisas sobre a COVID-19, no entanto havia cortado em março bolsas que contemplavam inclusive estudantes da área médica, processo que está sendo revisto no momento.
Os cortes da instituição refletem o contingenciamento de recursos para a área de ciência e tecnologia no país e, enquanto não se estabelece segurança para o desenvolvimento da carreira científica no país, durante e após a pandemia, diversos pesquisadores seguem sem saber se serão pagos por seu trabalho, já outros se questionam se sequer poderão seguir na sua linha de estudo e na carreira. É preciso investir na ciência e em quem a faz acontecer, só assim poderemos ter perspectivas mais positivas para o país após o arrefecimento da crise mundial.
Por Maria Eduarda Ledo de Abreu.
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